sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

'' Valsa de cores ''















Aqui nesta cidade encantada
onde o rio chega de mansinho
e as pontes abrem caminho

Neste lugar preso no tempo
de tantas histórias por sonhar
e uma torre que toca o luar

Perco-me assim sem perceber
embalado nesta valsa de cores
e numa vontade tamanha
de levar desta cidade
todos os seus sabores

Corropio de fantasmas
atravessam-me o olhar
fazendo-me acreditar

O mundo não é só o que se vê
este lugar existe em mim
e existe bem longe daqui

Perco-me assim sem perceber
embalado nesta valsa de cores
e numa vontade tamanha
de levar desta cidade
todos os seus sabores

(29.02.2008)

'' Poema ferido ''
















Um pedaço de céu
roubado na memória
velho, estranho sentido
neste lugar esquecido
bem longe da glória

No ritmo do tempo
marcado pela incerteza
de um sonho esbatido
sempre comprometido
fugido da tristeza

Como poema ferido
sem verso para rimar
sereno, profundo
do tamanho do mundo
e com a força do mar

Um pequeno nada
deixado fora de tudo
atravessando o espaço
no conforto de um abraço
num grito sempre mudo

( 29.02.2008)

'' Anjos & Demónios ''






















Há uma vela acesa no mundo esta noite
por outra criança que desapareceu
mais um coração quebrado
outra vida privada de ver o céu

E há um milhão de lágrimas
que se afundam neste mar de solidão
é o desejo que se desbota
no cinzento deste chão

Por vezes espreito à janela
e o pensamento dispersa-se no ar
por vezes pergunto-me se existe
algo melhor que este lugar?

Diz-me para onde vão os anjos caídos?
não sei onde se escondem
mas continuam a cair

O paraíso é um lugar estranho
mas mesmo assim desejado
será que ouvem o seu lamento?
terá o mundo um futuro adiado?

E esta vela ainda persiste
em busca de uma razão
há-de um demónio vencer
o sonho que temos na mão?

Diz-me para onde vão os anjos caídos?
não sei onde se escondem
mas continuam a cair

E há um milhão de lágrimas
que vão escorrendo esta noite
por cada criança perdida
na imenss solidão da sua sorte

( 2007- Baseado numa canção dos Aerosmith )

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

'' Um beijo ''





















No silêncio das sombras
de uma noite por inventar
na melodia de uma guitarra
o toque felino do teu olhar

Vieste na madrugada
encher-me o mundo de vida
trouxeste as palavras certas
e uma paz nunca perdida

Perde-te então comigo
no desvio dessa estrada
vagueio mudo no teu corpo
como uma história encantada

Por entre as nossas mãos
o respirar doce de um desejo
a dor deixa-se enfim vencer
no reencontro de um beijo

( 28.02 2008 )

'' A cada segundo ''

















Numa noite vencida longe da cidade
procurei a lua numa urgência eterna
de repente esta névoa desceu o vale
empurrada por uma força tão pequena

Como se tivesse o segredo mais profundo
fiquei preso nesta cortina feita de vapor
enfrentando fantasmas num sonho vazio
tentando fugir do silêncio que é a dor

A cada segundo o tempo foge
a cada instante a vontade morre

No acto surdo de morder o feitiço
o fim está mesmo à beira do começo
tudo o que se tem é não ter nada a perder
e esses nadas têm sempre um preço

A cada segundo o tempo foge
a cada instante a vontade morre

( 28.02.2008 )

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

'' Quase ''





















Quase cheguei a tocar o teu rosto
absorto neste mar de gente sem rumo
quase fiquei preso nos teus passos
sem forças para apagar este fogo sem fumo

Quase te roubei a sensação de um olhar
embriagado pelos néons descoloridos da cidade
quase me perdi nesse teu mundo perfeito
na espera de fazer parte da tua vontade

Quase senti o cheiro do teu perfume mais íntimo
mergulhado num turbilhão de ideias sem sentido
quase te falei as palavras mais acertadas
na ânsia felina de um desejo nunca consentido

Quase... quase te pintei na tela da minha vida...

( 26.02.2008 )

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

'' Sede canibal ''





















Ahhh!... mais um dia que nasceu...
e eu acordo sobressaltado pela penumbra da manhã clara
sinto no corpo a ressaca de mais uma noite mal digerida
... é tão estranho o meu tormento, e quando tento...
quando tento lembrar-me da madrugada anterior, e não consigo!...
tenho a garganta ressequida pelo vómito verde cru
pareço ter as entranhas dilaceradas por lâminas de dois gumes...

A minha vontade é isolar-me do mundo, mas em vez disso...
opto por afundar-me num mar de sombras que colonizam as ruas
as ruas escombrosas da cidade de cimento frio e nu!...
... tenho sede, nem sei de quê!?...
e o dia avança sedento, ansioso para ver a noite chegar...
e espreitá-la num esgar de desejos infindáveis

De repente... avisto essa silhueta de mulher que me provoca um nó no estômago
sigo-a confiante no seu passear vagaroso até uma ruela deserta e sombria
já a noite vai caindo, e eu interpelo-a incapaz de esconder este nervoso miúdinho...
e num avolumar de sensações, afogo a lâmina gelada no fígado...
e aguardo impacientemente pelo seu último sopro de vida, vazia...
... é tão quente o sangue que jorra do seu corpo despojado do ser!...

Ahhh!... é tão excitante poder devorar cada pedaço de mulher
aos poucos vou matando esta imensa e voraz sede de sangue e carne quente
estou a arder de jubilo!...

Já de barriga cheia, encaminho-me em passos arrastados para a toca
a noite está tenebrosamente fria e escura...
aqui e ali é insistentemente iluminada por néons que resistem, teimosos
colorindo o que não tem cor...
sinto o meu corpo a latejar de tanto reboliço
foi tão reconfortante matar a sede!...

( 2006 )

'' No meu sonho ''
















Passei por ti a fugir
e levei comigo esse teu cheiro
empurrado por uma força imensa
quis ver o teu sorrir primeiro

Sempre que te escondes
o meu dia fica triste e cinzento
quero que a sombra da tua voz
cale este meu lamento

Hei-de tocar o teu rosto
suavemente com o meu olhar
e dizer-te ao ouvido que o tempo
espera-nos para avançar

E assim, vives no meu sonho...

Lá do fundo dessa rua
vens decidida enfrentar o mundo
quero ficar do teu lado
desde o primeiro segundo

Enfim tenho a tua mão na minha
o teu olhar reflectido no meu
as bocas tocam-se num grito surdo
debaixo da magia deste céu

Hei-de tocar o teu rosto
suavemente com o meu olhar
e dizer-te ao ouvido que o tempo
ainda nos espera para avançar

E assim, vives no meu sonho...

( 25.02.2008 )

'' O meu lugar ''





















Há um novo mundo dentro de mim
que talvez nunca saberei encontrar
há um sentido que explica a razão da vida
mas tem segredos ainda por revelar

Esta vontade que me empurra daqui
e leva-me ao abismo mais distante
mostra-me o lado bom da coragem
no momento mais importante

Não sei qual a cor da minha alma
qual o peso morto da minha essência
sei que o universo é o meu lugar preferido
e nele busco o sentido da minha existência

A dor que trago guardada no fundo
ajuda-me a enfrentar o medo de arriscar
a outra margem deste imenso rio
imponente, guarda o meu lugar

( 25.02.2008 )

domingo, 24 de fevereiro de 2008

'' Sono de fantasmas ''

















Decidida a noite chega a este lugar
em passos largos de dança
pintando o espaço de negro
pela mão de uma criança

Néons ofuscam as ruas desertas
o frio vem ao dobrar a esquina
a lágrima lenta começa a cair
tão frágil, tão pequenina

Um sono cheio de fantasmas
sob um tecto de céu estrelado
sobrevivendo de barriga vazia
abandonada pela cegueira do estado

O estranho medo de acordar
e sentir um futuro recusado
o amanhã será sempre igual
neste pobre corpo refugiado

O tempo não apaga o presente
a mágoa é fogo farto de queimar
e essa criança confinada em solidão
procura uma mão aberta para segurar

( 24.02.2008 )

sábado, 23 de fevereiro de 2008

'' Sombra de luz ''


















Uma sombra de luz
num lugar distante
a magia de um olhar
numa noite cintilante

Um sono que acordou
e descobriu o futuro
a força que o amor tem
no desejo mais impuro

Uma centelha de fogo
que arde dentro do peito
segurar o amanhã
de qualquer jeito

Um abraço na partida
uma lágrima de saudade
será sempre assim
o tempo não tem idade

...será sempre assim
o tempo não tem idade

( 23.02.2008 )

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

'' Sei que quero voltar ''
















Um dia tudo se perde
e não vais perceber porquê
a espera que se esgota
o tempo espremido gota a gota
como a primeira vez

As palavras são mudas
como a sombra de um vazio
a memória dessa cidade
guardada para a eternidade
nas margens de um rio

Ainda recordo esse sorrir
a vontade de abraçar o mundo
fechar os olhos e tocar o céu
reaver tudo o que se perdeu
apenas num mero segundo

Estará ainda a porta aberta?
desejo de sentir o futuro
resgatá-lo de qualquer jeito
esquecer o passado imperfeito
e derrubar esse muro

Sei que quero voltar...

( 22.02.2008 )

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

'' Memória de ti ''





















A chuva cai no fim de tarde cinzento
mais um cigarro para sorver o tempo
guardo ainda a tua voz em mim
neste estranho e doce lamento

Esta memória de ti...
... que insiste em ficar
sempre na minha sombra
o brilho do teu olhar

O céu chora o dia inteiro para a cidade
tão cedo sei que não vai parar
a tua imagem conduz os meus passos
e leva-me assim, bem devagar

Esta memória de ti...
... que insiste em ficar
sempre na minha sombra
o brilho do teu olhar

Quando a noite chega enfim
e a chuva trémula pára de cair
já não sinto em mim a tua voz
já não tenho vontade de fugir

Esta memória de ti...

(24.02.2008 )

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

'' Sem nome ''
















Adormeço outra noite numa rua gelada
desaparecendo no meio desse nevoeiro
já nem me lembro do meu nome
não reconheço qual o meu paradeiro

As pessoas passam aceleradas e cegas
numa dança de sombras vazias
e eu sonho o futuro afogado em alcoól
sinto as mãos tremerem enrugadas e frias

Sei que pertenço a lugar nenhum
longe desta falsa democracia
já nem o sol brilha para mim
a minha vida é uma farsa consentida

Sobrevivo nos escombros desta cidade
perdido numa memória de liberdade
o tempo vai consumindo a minha alma
e o meu corpo já nem tem idade

Por uma vez que seja, dá-me a tua mão
ou apenas um pequeno sorriso então
empresta-me a amizade por um dia
trás ao meu mundo um pouco de alegria

Não ignores que existo ao pé de ti
deixa-me pertencer a esta sociedade
deixa-me ser um número e um nome
deixa-me agarrar tamanha vontade

( 20.02.2008 )

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

''Poema em folha branca''





















Há uma folha branca, nua de poemas
que trago junto ao meu peito apertado
como um palhaço pobre num palco vazio
não sei qual o verso mais acertado

Há um mundo de cores por descobrir
velhos segredos ainda por desvendar
mas este vazio é um poço sem fundo
que teimosamente insiste em continuar

Tenho a vida suspensa na palma da mão
e a certeza de um pedaço roubado ao futuro
as palavras lutam para se libertarem
trazem a magia da luz ao medo do escuro

E esta folha que um dia foi branca de cal
vaidosa, exprime-se num devaneio colorido
já tenho forças para sorrir ao céu brilhante
esquecer-me de quanto estive ferido

( 15.02.2008 )

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

''À sombra de um céu''


















Mais um dia passou neste lugar frio e distante
já perdi a conta das vezes que vi o céu escurecer
o tempo parece arrastar-se num sem fim vagaroso
e eu sinto que estou sempre, sempre a perder

Sinto cá dentro a sombra da muralha que me cerca
persegue-me em cada sonho que tento viver
a vida lá fora é um jogo que um dia deixei de jogar
esquecido num canto, na espera de apodrecer

O imenso azul do céu é o meu porto de abrigo
nele refugio todos desejos de atingir a liberdade
odeio de morte este vale de sombras e solidão
por um instante que seja quero descer à cidade

Mas sinto que estou sempre, sempre a perder...

( 14.02.2008 )